Café com Poesia ( e Arte) set/2011

A terceira parte deste encontro, contou com a apresentação de Leila Barbosa e Marisa Timponi intitulada:

BELMIRO BRAGA – O POETA DA BEIRA DO CAMINHO NOVO, em alusão ao percurso poético de Belmiro Braga, poeta juizforano,

primeiro mestre de Murilo Mendes.

BELMIRO BRAGA, O POETA DA BEIRA DO CAMINHO NOVO
Leila Maria Fonseca Barbosa
Marisa Timponi Pereira Rodrigues
Professoras-pesquisadoras da História Literária de Juiz de Fora
1. BELMIRO BRAGA: UMA CIDADE


3 estrelas: distritos de Belmiro Braga, Porto das Flores e Três Ilhas;
a lira: presença do poeta mineiro;
3 faixas prata: rios Paraibuna, Preto e Peixe;
a Flor de Liz: Santana, padroeira.
Hino de Belmiro Braga

Letra de: Dormevilly Nóbrega
Música: Daltony Nóbrega

Margeando o caminho novo,
Veio habitar outro povo,
Na antiga Minas Gerais
E num sonho que ainda expande
Fez nascer à vargem grande,
Cheia de força e ideais.
Ao chamar-se Ibitiguaia,
Um novo sonho se espraia
Da própria vida cuidar – (bis)
E, no ideal que se afaga,
Escolher Belmiro Braga,
Protetor deste lugar
2. BELMIRO BRAGA: UM POETA
Lá vem o volante Belmiro Braga sorrindo no seu terno xadrez e chapéu Panamá percorre a cidade toda, (…)
me ensina a rimar e metrificar, mais tarde me abre a caverna da sua biblioteca, onde durante mil e uma tardes
descubro Bocage, Cesário Verde, Camilo…
É assim que o também juiz-forano, poeta maior Murilo Mendes, anuncia seu mestre,
o “trovador menor” Belmiro Braga.
(p. 40-2 de A idade do serrote).
Belmiro Braga poeta é “descoberto por Fernandes Figueira (precursor da pediatria brasileira),
de quem se torna amigo e a quem deve o presente “A Metrificação”, de Castilho, como cooperação
para seu aperfeiçoamento. (…) Algum tempo depois, o poeta (cearense) Antônio Sales, de passagem pela região,
conhece seus versos e espalha com alegria haver descoberto um poeta
(In: NÓBREGA, Dormevilly, Poesia em Juiz de Fora: coletânea. p.67).
Em uma fazenda vizinha, a Bom Jesus, morava o Major Joaquim José Nogueira Jaguaribe (Quincas),
avô do médico e também escritor, o grande memorialista Pedro Nava, que, assim, se autodescreve:
Eu sou um pobre homem do Caminho Novo das Minas dos Matos Gerais. Se não exatamente da picada de Garcia Rodrigues,
ao menos da variante aberta pelo velho Halfeld e que na sua travessia pelo arraial do Paraibuna,
tomou o nome de Rua Principal e ficou sendo depois a Rua Direita da Cidade do Juiz de Fora.
( NAVA, Pedro. Baú de ossos, p.12)

Segundo afirma José Procópio Filho: E o poeta Belmiro Braga nunca esqueceu seu rincão,
que relembrou nos seguintes belos e sentimentais versos:

Foi aqui, neste plácido retiro,
Ouvindo a voz amiga de teus pais,
Que a infância alegre te correu, Belmiro,
A alegre infância que não volta mais…

In: Aspectos da vida rural de Juiz de Fora p. 172.
Lar paterno

A meu irmão Solano Braga

Nesta em que vivo, triste soledade,
Os olhos rasos d’água, o peito em ânsia
Recordo-me, com mágoa e com saudade
Do quadro tão feliz da minha infância.
E entre o viver de agora e essa áurea idade
Que triste, que cruel, que erma distância!
E a manhã que passou voltar não há de
Rescendente de tépida fragrância ?!…
Serras virentes que não mais transponho,
Na retina fiel ainda eu vos tenho
E revejo através de um grande sonho,
A casa onde nasci, as mansas reses,
A várzea, a horta, o laranjal, o engenho
E a cruz onde eu rezava tantas vezes…

Belmiro Braga

ADVERTÊNCIA NECESSÁRIA
(…) Devo explicar também que não sou culpado de me cognominarem de João de Deus, de Campoamor, de Musset,
pois sei que, se ainda nenhum destes três grandes poetas protestou contra o atrevimento da comparação, é simplesmente porque,

quando ela apareceu, eles já tinham… morrido.
Só um cognome me poderia alegrar o coração e é este – Belmiro Braga, o Trovador de Vargem Grande,
obscuro arraial mineiro onde nasci e em cujo cemitério dormem meus queridos Pais o eterno sono…
Belmiro Braga
Rio, 2 de setembro de 1918 (Contas do meu rosário, p.X)
AO PRÍNCIPE

Pela estrada da vida subi morros,
Desci ladeiras e, afinal, te digo
Que, se entre amigos encontrei cachorros,
Entre cachorros encontrei-te, amigo!
Para insultar alguém hoje recorro
A novos nomes feios, porque vi
Que elogio a quem chame de cachorro,
Depois que este cachorro conheci. (Rosas)

3. BELMIRO BRAGA: O CAMINHO
O TREM DE FERRO (fragmento)
Quando a estrada de ferro Central penetrou em Minas, ficando o seu leito distante umas quatro léguas da Reserva, (…)
Desejávamos saber como era a máquina, quem a fazia correr; como se viajava nos carros que ela puxava.
Era esse o nosso assunto de todas as horas. (…)
Como que alheio a tudo que me cercava, certa vez, ouço, vindo de muito longe, um berro triste e prolongado que, até então, nunca ouvira. (…)
Ninguém me acreditou; (…) E por mais que eu jurasse ser verdade o que dissera, todos me chamavam sonhador.
Mas, apesar disso, a romaria à serra continuou e o berro do trem de ferro foi, afinal, ouvido por todos…
E por muitos meses, fui apontado, em casa e nas vizinhanças, como a primeira pessoa que ouvira o apito do trem de ferro naquelas redondezas…

ONTEM E HOJE

Na doce infância descuidada, quando
eu ia, às vezes, à Estação vizinha,
nos viajantes do Expresso reparando,
ah! que inveja cruel não era a minha!…
(…)
E hoje, viajando como aquela gente,
nas estações invejo tristemente
quem ali, ao me ver, me inveje a mim…
(Tarde florida)
ÚLTIMA CARTA

(…) Sigamos, cada qual, nosso caminho,
e que dos flóreos trilhos através
não encontrem jamais um só espinho
por entre as rosas teus mimosos pés.
(Tarde florida)
5. BELMIRO BRAGA: A IRONIA
- Lamento de mineiro

CARTAS

(…) O mar que meu berço banha
- e eu te confesso com mágoa –
é o famoso Mar de Espanha
que não tem peixe e… nem água
Quem o nosso íntimo sonda
mais no prolóquio tem fé:
- Mineiro não vai na onda
Nem rema contra a maré.
(Tarde florida)

De si mesmo

Esta cara de pamonha
À lembrança não te acodes?
Botei de lado a vergonha
E dei cabo dos bigodes.

Belmiro Braga
6. CONCLUSÃO
Morto, não quero o belengar de sinos,
enchendo de amargura o espaço imenso,
nem esses tristes, merencórios hinos
da charanga do bairro a que pertenço,
Cante-me o padre alguns textos latinos,
por entre nuvens de cheiroso incenso,
mas, desde já, previno: – pequeninos,
que os textos grandes, com prazer, dispenso…
No cemitério, nada de discursos:
acautelem-se, ali, dessa estopada
os bons amigos dos amigos ursos;
pois, em casa, o orador, à sobremesa,
dirá, pensando em mim: – Não somos nada.
Lá se foi o Belmiro!… que limpeza!…

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