TEXTOS APRESENTADOS NO ÚLTIMO ENCONTRO

ANA MÁSALA

Café com Poesia 6-11

VERSO   ERRANTE

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[ Imagem fractal da Internet]

No sopro da madrugada,
chega aos meus ouvidos
o som nostálgico de uma flauta,
que viaja manso pelas serranias.

Um verso irreverente acorda e dança,
incerto, entre uma e todas as palavras,
que descem até a ponta dos meus dedos,
e se aninham em minhas mãos fechadas.

Há uma noite trancada em minha língua,
mas o som da flauta que do etéreo veio,
suspira ao vento aquele verso errante,
que escapa à sina de um poema triste.

Agora, a languidez me banha os olhos...
um barco lento desliza em mar noturno,
e ancora fluídico sob minhas pálpebras
o poema mais calado,
o poema mais sentido!
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VERA GUEDES

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A LAGARTA E A BORBOLETA (METAMORFOSE)

Borboleta na violeta
Era uma vez...
uma lagarta envergonhada,
que pelo chão se rastejava,
e todo mundo debochava:
que lagarta desengonçada,
feia e maltratada!
Ninguém dela gostava,
às pessoas, ela assustava.

Pobre Dona Lagarta...
Muito triste ficou,
e sentindo-se desprezada,
em um casulo se fechou.

E assim...
passaram-se os dias,
ninguém sua falta sentia,
até que em belo cenário,
enquanto o sol, a vida aquecia,
e a rosa, o jardim floria,
em um galho pendurado,
o casulo se abria.

E uma linda borboleta,
de asas bem coloridas,
o casulo deixou,
alegrando nossa vida.

E todos viram o milagre,
que a natureza prepararou,
a feia e envergonhada lagarta,
na borboleta se transformou.

Já não era desengonçada,
mas linda e cheia de graça,
e a todos superou.

Pois não mais se rastejava,
pelo contrário, voava,
o céu, enfim, conquistou.
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REGINA MACHADO

Café-fotos 4
A  FLECHADA

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O arco da vida se retesa
lança sua flecha implacável.
Uma grande cicatriz se forma.
Atinge o alvo, nas emoções,
que, sem piedade,
com toda a força
trazem com elas
sentimentos vividos,
alegres, sofridos,
ocultos, nunca revelados
por toda uma vida.
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ANA  MIRANDA

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CRÔNICA

cachorro vira-latas de Martha de Barros
[Cachorro vira-latas de Martha de Barros]

Gentem, hoje me aconteceu uma coisa muito interessante.
Eu sai para correr e mal dei dez passos, um cachorrinho,
um tomba-latãozinho (vira-latas), que estava
do outro lado da rua, atravessou e veio todo serelepe
para o meu lado.
Como saio muito cedo para correr, eram 5:10 da manhã,
a rua era só nossa.
Descemos a Padre Café sem ninguém passar por nós,
nem carro. Aí, eu corria, ele corria também,
eu parava, ele parava, pulava em mim, lambia minha mão,
trançava pelas minhas pernas, quase me derrubando
no chão e assim fomos, só nós dois
até chegarmos na Independência, onde já havia
pessoas e carros, aí começamos a andar comportadamente,
mas ele continuou trançando pelas minhas pernas.
Quando estávamos, na metade da Rio Branco,
ele achou companhia melhor que a minha. Abandonou-me
sem sequer abanar o rabinho uma última vez...
Trocou-me por um catador de papel
que vinha em sentido contrário. Foi-se.
Tomara que ele e o Catador fiquem juntos.
Dois grandes seres!
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ANGELA  NABUCO

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ENFIM

Contornos de Eduardo Cândido (fotografia)
[ Contornos de Eduardo Cândido (fotografia)]

A porta de abre
uma luz - ainda que tímida -
mostra o contorno das coisas

uma cadeira
a mesa qualquer
velha conhecida

devagar, como
quem pede licença
os versos vão entrando, com
vergonha de chegar, depois,
de longa ausência

eu os recebo
estreando o vestido colorido
que aguardava no armário

nas dobras do tecido
sou haste flexível
que se deixa dobrar
ao vento
brincando de esperança.
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HELENICE TOMAS

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[ da direita para a esquerda: Angela Nabuco,
Ana Másala,Vera Guedes, Helenice Tomas, Ana Miranda]

DEIXA

niver da dri 10
[Foto de Cristine Guadelupe]

Deixa que eu transponha
o profundo desses olhos morenos
e que eu penetre além desse meu desejo
e que na imensidão
desse mundo invisível
eu encontre o sabor do sonhado beijo

Deixa que eu invada
o profundo desses olhos serenos
e que na invasão
dessa imensa infinda vida
eu descortine a bandura
de sua pele morena.
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JORGE LUIZ DA SILVA ALVES


Jorge Luiz da Silva Alves 120

VATICÍNIOS

profecias

Tomou-me as mãos; misto de sublimação e enfado, auxiliada pelo sândalo a exalar misticismo por todo aquele pseudo-santuário, iniciou a lucubração: vira crianças sorridentes com hematomas onde naufragavam suas inocências, mulheres infelizes sob tetos de mármore, homens revoltados pela falta de mártires para suas causas bisonhas, bonachões veteranos da vida na cuenta batalha pelo reconhecimento da sociedade em filas humilhantes…continentes inteiros infectados pela tragédia, raças irmãs dizimando-se na hecatombe por um deus que é o mesmo para todos, curas descobertas por acaso e antídotos encobetos por lucro. Ainda me olhava, desesperançada, quandp paguei a consulta e não exigi o troco. Desajeitado, desculpei-me: ” Não, ainda não sou eu; o tempo de meu ministério ainda virá – por hora, não me cricifique…”

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MARIA  HELENA SLEUTJES

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FADO  AOS PEDAÇOS

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Na enseada do desejo

o vento sopra inquietudes…

“se meu amor vier cedinho

eu beijo as pedras do chão

que ele pisar no caminho”

Se meu amor vier de tardinha

eu abraço as sombras da rua

pra a luar se embriagar…

Se meu amor vier de noitinha

eu troco todo o lamento

por uma canção de ninar…

Se meu amor… vier pra ficar…

eu canto na voz do tempo:

“tenho o destino marcado

desde a hora em que te vi.

Ó meu cigano adorado

viver abraçada ao fado

morrer abraçada a ti…”

[ os trechos entre aspas são versos do belíssimo fado português
- RUA DO CAPELÃO]

One Response to “TEXTOS APRESENTADOS NO ÚLTIMO ENCONTRO”

  1. Ana Miranda Says:
    janeiro 14th, 2010 at 8:22

    Para ser feliz não é preciso muito.
    Pessoas queridas, assuntos deliciosos e uma boa pitada de amor.
    Está pronta a receita da felicidade.
    Consuma à vontade, não engorda, não faz mal em excesso e não enjoa nunca!!!

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