Reposta de Glória Barroso ao – Carta, então?

gloria

Leopoldina, 30/10/09

Minha recente e antiga amiga,

Recebi sua Carta que leio e releio e agradeço por me confiar suas perplexidades, descobertas, sustos que se despejam no rio da Poesia, fertilizando, fazendo florescer sementes escondidas, esse Rio enriquecido com suas lembranças esmaecidas ou intensas. Não posso deixar suas cartas na gaveta ou na estante porque transbordam incontidas, vibrantes de apelos, emoções veladas ou escancaradas. Como não aparar com as mãos em concha e receber essa água pura que vem de fontes arquetípicas ou turvas pelas angústias inerentes ao ser humano diante do incognoscível, o inextricável fio emaranhado do destino.

Caminhamos, Maria Helena, apoiadas em tantas mãos. As suas, as de Gullar, as de Morandi, que como você diz, não decifram mas apresentam o mistério. Seguimos de aurora em aurora, crepúsculo em crepúsculo, alternando sóis e luas sucessivas, espantadas e atingidas pelo “Galo galo” de Gullar, pelas silenciosas “Coisas” de Borges e pelas Cartas de Maria Helena.

Minhas precárias mãos ansiosas, descuidadas, deixam derramar a fartura recebida, mas não são desperdiçadas. Fecundam algum lugar reinventando a magia da vida.

Beijos G [ Glória Barroso]

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