Vestido Azul

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VESTIDO AZUL

Angela Nabuco

I

azul piscina
azul
todo cetim e todo brilho
minha mãe
mergulhada no vestido

anos sessenta
o baile
luvas de pelica
perfume fleur de rocaille
ligas segurando as meias
teias
de tão finas

a festa escrita no vestido
nele
o champanhe derramado
o carimbo em forma de lábio
do batom
o suor da valsa impregnado no tecido

hoje não mais a festa
em outro calendário
contados dias meses anos

a cabeça velha
olhando os panos
se enche de lembranças

morto
o vestido ao chão sem seu corpo

II

Volta a si
como de um sonho

medonho
é morrer pelas lembranças

olha à janela
alguém apressado
se move em zig zag
como dança

vê outro azul
piscina
no céu de brigadeiro

é janeiro
como tantos outros refletidos
nos seus olhos velhos
embaçados
igual em tudo aos tempos idos

é verão na praça

o casal de namorados
trava sua batalha de beijos
e de brigas

duas amigas par e passo
e crianças
pequenas esperanças
brincam

outro alguém vestindo azul
espia da janela
como ela
no passado

quando se volta
olha o vestido
no chão do quarto
derramado
e não comete enganos
quando sente

tem trinta anos
novamente

a minha mãe